Carlos Conde
Carlos Conde é Jornalista, Sócio Remido e conselheiro do Santos Futebol Clube

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Publicado em 19.03.2008

O falso Santos “tricolor”


Muitas coisas estranhas aconteceram na longa e gloriosa trajetória do Santos Futebol Clube. Malas recheadas de dólares que caíam de aviões em pleno vôo internacional. A enorme renda de um jogo contra o Corinthians, no Morumbi, que sumiu em um passe de mágica de um cofre à prova de metralhadora, protegido por três portas de ferro à prova de bazuca. Diretores que ganhavam sorteios de automóveis nos tempos em que o Parque Balneário pertencia ao nosso clube.

Mas nunca imaginei, nem nos meus pesadelos mais atrozes, que esses absurdos pudessem ser multiplicados por mil – ou um milhão? – numa noite chuvosa em Vila Belmiro. E sob o olhar embasbacado de menos de quatro mil torcedores.
Infelizmente, isso aconteceu e eu tive a desventura de estar lá. A história do nosso clube registrará, envolta em luto, que na noite de 13 de março de 2008, contra o Mirassol, nosso time entrou em campo sem as cores da sua bandeira e com as quais sempre atuou ao longo de 96 ininterruptos: branco e preto.

Com uma curtíssima exceção, no início de sua vida, quando nos vestíamos de branco, combinado com dourado e azul. A partir de então, oficialmente, e durante mais de nove décadas, o Santos é alvinegro.

Nessa noite de março, para perplexidade de todos, o Santos pisou seu tapete verde com uma cor que não é a sua: o azul. Aliás, um azul de péssimo gosto. Em torno de mim e em outros círculos das sociais e arquibancadas foi fácil notar um sentimento de forte contrariedade. Essa reação, praticamente uniforme, ia da surpresa mais completa à indignação total.

Quando o jogo terminou passei, cabisbaixo, pelos bustos de Athié Jorge Coury, Modesto Roma e Urbano Caldeira, nosso exemplo maior. Notei neles um semblante de reprovação quase furiosa. Foi como se eles me perguntassem: Que Santos é esse?

Era como se me falassem, com o que concordo plenamente, que esse não é o Santos dos seus trinta e nove fundadores. Nem o Santos que, geração após geração, foi construindo, tijolo a tijolo, o edifício maravilhoso da sua história encantadora.

Esse não é o Santos dos seus associados e da nossa nação de mais de seis milhões de fiéis em todo o Brasil. Associados e nação que riram e choraram durante 96 anos pelas cores preta e branca.

Esse não é o Santos que num domingo de 1935, vestido de preto e branco, foi cutucar o tigre Corinthians com vara curta, no seu fortim do Parque São Jorge. E de lá saiu pela primeira vez campeão paulista.
Esse não é o Santos que 20 anos depois, já então na sua casa, o alçapão mitológico, e com traje alvinegro, conquistou nosso segundo título paulista, graças a uma bomba de Pepe, menino de ouro, no gol da rua José de Alencar.

Esse não é o Santos que num domingo imortal de 2002 entrou de preto e branco contra seu arquiinimigo no Morumbi superlotado para, pelas mãos hábeis de Fábio Costa e os pés mágicos de Robinho, ao lado de outros heróis, nos resgatar de 18 anos seguidos de tristezas e frustrações.
E, para chegar ao céu, esse Santos de azul não é o Santos que inspirou os deuses do esporte a criar Pelé, o Messias da bola, o menino-rei, o deus dos estádios.

Que elevou o futebol ao nível do sublime. Ele, sempre orgulhoso no seu uniforme preto e branco, engrandeceu ainda mais nosso clube, cobrindo-o de glórias e, se não bastasse tudo isso, é ainda por cima não só o nosso torcedor mais ilustre, mas um dos mais fanáticos. Toda a sua trajetória de gênio máximo do futebol no nosso clube adorado estava abençoada por duas cores, e nenhuma delas era azul.

Não foi para ver o Santos de azul, mas de preto e branco, que meu pai e meus tios, loucos de paixão e sem dinheiro para comprar ingressos, erguiam escadas acima das folhas de zinco que cercavam aquela terra santa, destinada a se transformar um dia no palácio do Rei.

Não foi para ver o Santos de azul, mas de preto e branco, que nossos torcedores muitas vezes apanharam dos adversários e da polícia e nunca desistiram do seu sonho.
Esse Santos desfigurado, descaracterizado, sem suas cores verdadeiras de sempre no seu manto sagrado, com vergonha delas, talvez seja o Santos de meia dúzia de iluminados. Maus imitadores de costumes alheios, subordinados ao império do marketing sem criatividade e aos interesses dos fabricantes de artigos esportivos. Eternos botocudos, colonizados do século XXI, seduzidos pelas miçangas da metrópole européia do futebol.
Depois do azul, quais serão as próximas cores do nosso uniforme: vermelho, amarelo, lilás, rosa choque ou cor de burro quando foge?

O próximo passo desses iluminados, segundo a lógica, seria mudar nossa bandeira. Se o uniforme, que representa o pavilhão, mudou de cor, seria coerente também alterar as cores da bandeira. Acrescentando, talvez, o azul que tanto parece encantá-los. Quem terá a ousadia, o desplante, a arrogância de nos transformar, perto do centenário, em um falso tricolor? Quem cometerá esse crime contra o Santos?


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